Eis que os olhos do homem já cansado de dormir todas as noites e acordar todas as manhãs se abrem. De fato fitam as rachaduras que comprometem a estrutura do teto de seu humilde quarto, farto de tudo segue para o banheiro. Chegando a porta nota um pequeno facho de luz que sai por debaixo da fresta. Irritado pensa – Ocupado, de novo, como todas as manhãs. Aguarda alguns minutos, vê sua esposa “uma bela dona de casa, diga-se de passagem” sair vagarosamente do tão desejado local de higiene matinal. Ao adentrar observa os mesmos azulejos trincados e gastos pela umidade, lava-se, troca-se e segue apático para o andar de baixo desejando um desjejum diferente. Então sua carinhosa esposa avisa-lhe – Seu mingau está pronto. Normalmente ele sentaria a mesa, comeria calado, daria um beijo em sua amável companheira e sairia aparentemente contente ruma seu trabalho, mas desta vez ocorreu algo bem diferente. Olha bem nos olhos de sua antiga paixão com tom de despedida e ela sente que seria a última vez que iriam se ver, então ele baixa o olhar e sai porta afora em busca do inalcançável. Sim, inalcançável. Uma vida repleta de rotinas e mesmices fúteis. Inúteis. Então resolve pegar seu carro e dirigir para qualquer lugar, sem compromisso, sem bagagem, sem preocupações ou ocupações frustrantes. Depois de percorrer mil quilômetros depara-se com um grande abismo a beira da estrada e freia o carro frente ao vazio enorme que parece querer engoli-lo a qualquer momento. Engata a primeira marcha. Com o pé na embreagem acelera um pouco para sentir o motor do carro e começa a pensar: “Será que posso ser livre? Que posso perecer e renascer em vida mais alegre e cativante?”. Ele decide desligar seu carro e seguir viagem em pés desnudos... Cada momento se enche de vida entre as paisagens desconhecidas da serra onde a noite a Lua míngua por entre a folhagem da relva da serra. A exaustão chega e o sono parece tomar conta. Eis que ouve gritos de tormentos vindo da mata. Feito cego em tiroteio põe-se a correr as cegas por entre a selva escura e selvagem, seus pés estão enlameados, escorregadios e por um segundo lhe traem sem esitar. A queda é inevitável, cambalhotas, cortes, hematomas e mais ferimentos vão surgindo durante sua queda vertiginosa perante o barranco de espinhos e galhos secos. Por fim desmaia... Acorda com um zumbido na cabeça – Era seu despertador, para mais uma manhã tediosa de trabalho. Mas que droga, pensou ele. Ao retirar as cobertas que o abrigavam de uma noite de sono aparentemente tranqüilo percebe a cama e suas roupas repletas de sangue e sujeira, seus ferimentos são aparentes, então avança para o banheiro em busca de remédios e ataduras, mas... A porta estava fechada e a luz mais uma vez saia pela fresta da porta, onde vagarosamente se abria e saia sua esposa a lhe dar bom dia mais uma vez.
Felipe Ferreira Pereira 30/10/10
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